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Ana Lourenço, na SIC Notícias, tentaria durante todo o debate desta terça feira, moderar o fluxo de perguntas e respostas entre Catarina Martins e Paulo Portas, mas, muito devido ao líder do CDS, isso quase nunca foi possível. A jornalista chegou mesmo a referir no final: "isto devia ser como de costume, eu fazia as perguntas e os senhores respondiam”. Assim não foi. O desafio era falar do futuro, mas os candidatos estiveram demasiado atidos ao passado...

A líder do bloco de esquerda foi a feliz contemplada em sorteio para dar o pontapé de saída do debate, mas não arrancou bem. Querendo fazer uso de uma imagem positiva cometeu o erro de lançar uma das suas armas demasiado cedo: sorriu. O sorriso é, na verdade, um dos grandes aliados dos políticos. Os bebés aprendem rapidamente que o choro chama a atenção dos adultos e que o sorriso os mantém ao seu lado. O sorriso humano tem a função, similar aos primatas, de demonstrar aos outros que não se é uma ameaça e que podem aceitá-lo sem receio. Esta expressão facial é tão forte que provoca um ato espelhado e a outra pessoa, perante um sorriso (seja este falso ou verdadeiro), responde sorrindo. Acontece, porém, que a linguagem corporal deve estar em consonância com o que está a ser dito e Catarina Martins começou por responder à primeira pergunta, “sorrindo” e referindo ao mesmo tempo que há muitas famílias que se governam sem dinheiro e que o governo cortou em famílias que já pouco tinham. Este tipo de declarações não deve ser acompanhado por expressões de felicidade – mesmo que o sorriso possa ser irónico – mas por semblantes que assistam a seriedade da matéria. O sorriso da líder do Bloco de Esquerda (BE) ao referir que a “política de austeridade cortou na economia, nos emprego e nas perspectivas do país” destapou o nervosismo inicial de Catarina que ao longo do programa se foi esbatendo, embora mostrasse uma clara contradição entre a seriedade do tema – que justificava uma expressão séria e firme e demonstrativa da alusiva solidariedade que queria mostrar para com os visados – e o sorriso encantatório (ou cínico?) que acompanhou as palavras. É caso para dizer, “ouve o que eu digo mas não vejas como digo”.

A pergunta foi, depois, devolvida para Paulo Portas que espalhando dossiers pela mesa, tentava transmitir uma imagem de elevado grau de estudo e proficiência. Foi, por isso, com surpresa que vimos o líder da direita começar com um olhar baixo, um tom de voz algo embargado e um discurso pouco fluído – nada normal e pouco consentâneo com o registo a que nos tem habituado. Em termos de conteúdo, a resposta também soou a desculpa com Paulo Portas a “excusar-se” pelo facto de que quando chegou ao governo “o país tinha entrado em bancarrota e a prioridade era terminar o contrato com a troika o mais cedo possível”. Do líder do CDS destacamos que durante vários momentos do debate evitou o contacto visual com a “adversária”, optando por olhar para baixo ou por tentar encontrar refúgio na jornalista para quem, a mais das vezes, dirigiu o olhar e as respostas. A falta de contacto visual é algo que está associado a pouco poder. Quando não tememos quem temos diante de nós, enfrentamos a pessoa e miramo-la de frente. Neste campo esteve bem Catarina Martins sempre fazendo muito bom contacto visual direto com Paulo Portas. No que respeita aos gestos, mais concretamente os gestos ilustradores, o líder do CDS saiu a ganhar pela experiência que os anos de política lhe conferem. Os gestos ilustradores são aqueles que ocorrem durante a comunicação verbal e que servem para ilustrar e dar forma ao que está a ser dito. Neste sentido, qualquer tipo de movimento corporal que desempenhe um papel auxiliar na comunicação não verbal é um ilustrador. Paulo Portas é exímio em fazer acompanhar o seu discurso com gestos que lhe conferem mais força, porquanto estão em perfeita harmonia com o que está a ser dito. Portas é um dos políticos que melhor uso faz da sua comunicação não verbal. Um dos gestos que mais o caracteriza e que transmite a ideia de que é uma pessoa muito organizada mentalmente é o gesto de enumerar. As pessoas que expõem os seus argumentos com auxílio dos dedos das mãos para elencar os seus motivos são percepcionadas como pessoas com muito boa estrutura mental. Para além disso, este gesto auxilia o receptor da mensagem a melhor entendê-la: é como se fossem sendo colocados post its com notas à medida que se vão expondo as suas razões. Portas tem ainda a vantagem de começar a enumeração com o dedo polegar. O uso deste dedo é percepcionado como afirmativo (salvo a rara exceção em que é utilizado para apontar para alguém, situação que é vista como rude e pouco educada), já que muitos dos nossos gestos culturais positivos são conseguidos com a aposição do polegar. Os polegares indicam força de carácter e personalidade e são utilizados para demonstrar domínio e superioridade. Catarina Martins é mais contida nos gestos, mas faz um bom uso regrado dos mesmos. Diria, apenas, que a candidata do BE recorre demasiadas vezes ao gesto de “pinça” – quando o dedo polegar pressiona o dedo indicador – que pretende transmitir precisão e rigor. Quando se faz, contudo, um uso exagerado e demasiado frequente deste gesto, tal pode ser percepcionado com um gesto ensaiado (já que não é normal que queiramos transmitir “rigor absoluto” durante toda uma conversa). Na sua postura habitual, Catarina Martins inclina um pouco a cabeça de lado – Portas também o faz – o que revela interesse e abertura para o diálogo.

Nenhum dos candidatos recorre muito a gestos adaptadores que são os gestos utilizados para esconder as emoções que não queremos revelar. Da mesma forma, poucos gestos pacificadores se observaram ao longo do debate. Estes são gestos em que a pessoa se toca (na face, no nariz, na testa, no olho, etc.) para, de alguma maneira, se auto confortar. É uma tentativa que a pessoa faz para se acalmar num momento de maior ansiedade. O que vemos é muitas vezes Paulo Portas escutar Catarina Martins com o olhar direcionado para baixo e com a mão a tapar a boca ou a apoiar a cara – enquanto esta, na mesma situação, o fita com um sorriso “algo trocista”. Já vimos que o olhar baixo, que é acompanhado da cabeça também baixa, revela uma atitude negativa. Esta atitude, que não deixa ver a cara e mostra a parte superior do crânio, é uma postura de renúncia ou de fecho, que pode ser vista como reserva, embaraço, submissão, sentimento de impotência, etc. Paulo Portas também recorre à mão ou alguns dedos que tapam a boca ou apoiam parte do rosto. Com esta atitude, Portas revela que está a sentir alguma ansiedade – quase como se quisesse que Catarina Martins não estivesse a dizer o que está a dizer. Tapamos a boca quando temos receio de algo que “não queremos deixar entrar”. Enquanto escuta a candidata do BE, Portas por vezes assume também uma postura em que a mão apoia a cabeça e o dedo indicador aponta verticalmente para cima, enquanto o polegar sustenta o queixo e os restantes dedos tapam a boca – normalmente, este gesto associa-se a momentos em que o ouvinte alimenta pensamentos negativos ou críticos sobre o orador ou sobre o que este está a dizer. Se o dedo indicador está sobre o rosto, mas os restantes dedos estão debaixo do queixo, a pessoa está concentrada e atenta e revela um interesse real pela comunicação do seu interlocutor. Catarina Martins passa quase todo o debate inclinada para a frente o que revela interesse, curiosidade e abertura. O braço esquerdo que mantém quase sempre esticado e apoiado na mesa parece ser um gesto estudado para conferir poder à candidata com cara de criança. A mão em cima da mesa revela que a pessoa quer ir direta ao assunto. Quanto mais espaço ocupamos, mais autoridade transmitimos e a candidata do BE escolheu bem esta postura para transmitir uma ideia a que, normalmente - muito por força da sua jovialidade -, não a associaríamos: poder. Paulo Portas, quando também não se “espalha” pela mesa reivindicado espaço e autoridade com o corpo, fá-lo através dos dossiers que distribui à sua volta.

De vez em quando vemos um pouco do Paulo Portas a que estamos habituados, através de expressões faciais de indignação, sobrancelhas baixas, olhar semicerrado, narinas dilatadas e com o autoritário dedo indicador em riste – como quando recorda os ajustes diretos e a privatização dos transportes levados a cabo pela única Câmara conquistada pelo BE, em Salvaterra de Magos. Da mesma forma se endireita para “atirar” a Catarina Martins o exemplo da Grécia de Tsipras que o BE tanto aplaudiu e chegou a afirmar que seria o caminho para Portugal. Posturas que contrastam quando o tema é o do plafonamento das pensões e do corte dos 600 milhões previstos para a Segurança social, arremessados pela líder da esquerda. Aqui, Portas direciona uma vez mais o olhar para baixo (talvez procurando respostas nas suas notas – embora essa postura para um telespectador seja percepcionada como uma postura de vencido...) e agarra uma mão com a outra mão, revelando ansiedade. Quando responde com o “chamado plafonamento”, faz o gesto que ilustra “entre parêntesis” e expressa desprezo através do enrugamento do nariz, revelando, deste modo, que o tema o incomoda. Nitidamente este é o tema que perturba Portas que sorri forçadamente, baixa a cabeça e o olhar e fecha as mãos, muitas vezes sobre a boca. Por seu turno, Catarina Martins revela stress quando o tópico é a saída do euro, como se vê pelos punhos que se cerram automaticamente quando este é o tema que vai para cima da mesa. Fica afogueada, suada e roburesce quando lança a sua arma: o tema das pensões, de que pede números a Portas, sem dele nunca os obter.

No que respeita à paralinguagem – que inclui o tom de voz, o ritmo da fala, o volume de voz, as pausas utilizadas na pronúncia verbal e demais características que transcendem a própria fala - apesar da crescente melhoria de Catarina Martins que tem vindo a conseguir abandonar o timbre monocórdico do teatro, está claramente melhor Portas, que oscila bem entre o tom de repreensão, a assertividade e a ira (apenas falhando ao interromper pontualmente, de forma algo brusca, a moderadora do debate). Ou seja, estivemos perante um Portas em que a forma como se expressava era o complemento adequado ao que estava a referir oralmente.

Em suma, sem que para os eleitores deste debate nada saia em termos daquele que era o seu tema – o futuro –, diria que Catarina Martins foi aos ensaios e deles saiu bem preparada em termos teóricos e práticos. Paulo Portas, provavelmente, com menos tempo para treinos, (ou demasiado centrado no passado fruto das suas responsabilidades governamentais), surgiu mais cansado e “demasiado preocupado” com um BE para quem contudo ainda teve tempo de preparar três ataques “mortais”: Grécia, Salvaterra de Magos e se o BE quer ou não Portugal no Euro ou defende uma nova moeda com tudo o que isso implica. E se é verdade que Portas tem temas de que não gostará, de modo algum, ver abordados, os outros temas são letais para o BE e para uma determinada esquerda: Salvaterra e a questão do Euro é um tema funesto para o BE e para Catarina Martins, uma vez que revela uma total contradição entre o que se diz e o que se faz quando se é poder... Já a Grécia será um espinho para toda a oposição que teceu laudas à vitória do Sr. Tsipras e o exibiu como um apóstolo de um futuro novo que, já todos vimos, nunca irá acontecer neste conceito de Europa.

Catarina Martins serviu para Portas como um transmissor para mensagens que se destinavam ao PS e nesse aspecto deixou-se enredar nessa teia. Valeria a pena o esforço?

 

Texto publicado in LigateaMedia, dia 9 de Setembro de 2015 http://www.ligateamedia.pt/ArticleItem.aspx?tabid=2425&langid=pt&path=LigateaMedia/Artigos/Opiniao/&modid=55480&itemid=9055

 

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